Se minha bota falasse… por Raissa Castelhano.

Minha história com botas começou desde menina, eu devia ter uns 12 anos de idade, quando ganhei minha primeira botina para que eu pudesse desbravar o sítio do meu tio no sul de Minas Gerais, mais precisamente em Itapeva. O sítio ficava a +/- uns 20km de distância da cidade, na mais pura estrada de terra. Na época, você tinha que torcer para não chover, ou não conseguia subir as imensas ladeiras com as rodas do carro literalmente derrapando.

No dia que fomos comprar a bota, lembro que fomos a uma cidade próxima chamada Camanducaia e foi lá que tudo começou! Sai de bota no pé e um pintinho de 1 real da loja ao lado, que apelidamos carinhosamente de Asa Preta, para eu cuidar durante as férias escolares.Falando de férias, todo ano era assim: Dezembro e Janeiro, passávamos quase que inteiros no sítio, e Julho uma boa parte!

Mas voltando para a bota, ela era de camurça, de calçar, em uma tonalidade caramelo e que me acompanhava em todas as aventuras que vivi por lá, das caminhadas nas trilhas para ir ao topo das montanhas,  escaladas nas árvores para comer as melhores frutas da minha vida, do pé na lama indo ao chiqueiro alimentar a Zilda (a porquinha mais resmungona que já vi), andar de cavalo, das pescarias nas tardes ensolaradas, das idas ao galinheiro buscar os ovos fresquinhos, ao estábulo buscar o leite da vaca para tomarmos AQUELE café da manhã que só a minha saudosa avó sabia fazer! Que saudades dona Yolanda…

Frequentei este lugar por muitos anos da minha vida, desde criancinha até a minha adolescência e a vida no sítio era simples, uma simplicidade que provavelmente é o que mais sinto falta em meio ao caos que é São Paulo (onde nasci e vivo até hoje).

Infelizmente não tenho muitos registros fotográficos desta época, minha família não tinha o costume de tirar fotos e as poucas tiradas, foram se perdendo no tempo.

Hoje me dói o coração saber que este sítio não pertence mais a nossa família, onde vivi momentos tão especiais e tão simples que eu nem sei descrever, mas que com certeza fez Minas Gerais ser o meu lugar favorito da vida.

Ah, a minha bota ficou para a história também! Cresci e ela não serviu mais e ficou no cantinho da bagunça que o meu tio fez lá no sítio…. Hoje me arrependo de não ter guardado essa relíquia, onde só tenho boas lembranças.

obs: Encaminho aqui pouquíssimas imagens do sítio (antes de ser vendido), apenas para terem uma ideia do que tentei passar, onde acredito que a principal mensagem é: aproveite tudo enquanto é tempo! A valorização de muitas coisas só acontece depois que você as perde, infelizmente…

E para os dias atuais, adquiri recentemente a Moc Toe WC preta, que irá trilhar uma história comigo e quem sabe daqui uns anos, conto as novas para todos.

Abraços,

Raissa Castelhano


Compartilhe nas redes: